Uma Casa Séria

29.7.08

Ironias

Quando acabou o meu segundo período em Montes Claros, eu comecei a me mexer pra adquirir um imóvel habitável no Grande ABC.

Havia a opção de alugar um, mas principalmente pressionado pelo pessoal do sonho da casa própria, eu estava inclinado a comprar.

Encontramos um apartamento pequeno, mas dentro das nossas possibilidades financeiras. E fechamos negócio. Daí eu pensei: Tá bom, vai. É pequeno, mas é meu. E passamos à etapa seguinte, mobilia, pintura e instalações.

Primeira providencia foi arrancar o carpete e colocar aquele piso laminado que tem padrão de madeira, muito bonito e funcional e tudo o mais.

Mas daí a dona do apartamento descobriu que nao conseguiria emitir os documentos necessários para concretizar a venda do imóvel.

Não que me interesse o que aconteceu, mas o ex marido dela fez um empréstimo num banco, deu o apartamento como garantia e nao pagou o empréstimo, fazendo o banco protestar e bloquear o imóvel.

A ideia inicial era cancelar o negocio, mas:
1 Nós ja tinhamos trocado o piso, gastando uma valor consideravel em piso e pintura
2 Nós ainda precisávamos de uma lugar para morar

Resolvemos, então mudar a opção de compra por um contrato provisório de aluguel, que nos permitira continuar morando ali até a proprietária tomar as providencias para regularizar a situação documental, providencias estas que podiam ou não incluir tortura / assassinato do ex marido.

Nota mental 1: Ex bom é ex morto.

No contrato, tomamos a precaução de prever que ela não conseguisse resolver o problema e por isso, durante o período de um ano o aluguel traria um desconto referente ao que foi gasto com a troca do assoalho.

Ironia do destino 1: Eu achava melhor alugar um lugar provisoriamente, fui convencido / pressionado a comprar, cedi e decidi comprar, terminei sendo praticamente obrigado a alugar, que era minha intenção inicial.

Nota mental 2: Eu estava certo.

Daí o emprego anterior despencou na categora satisfação profissional. As perspectivas para médio / longo prazo não eram das melhores e eu comecei a sonhar com outros ares.

Em dezembro esses sonhos viraram realidade e em fevereiro eu estava instalado precariamente num apartamento em Volta Redonda de segunda à sexta feira e nesse apartamento que quase tinha sido nosso aos sábados e domingos.

A Alê continuou por lá.

Nesse novo emprego, a expectativa inicial é de ficar aproximadamente um ano em Volta Redonda - RJ, depois aproximadamente um ano em Barueri – SP, depois aproximadamente um ano em Guarulhos – SP depois me mudar de vez para Volta Redonda – RJ. A melhor opção financeira para esse momento é alugar um imóvel próximo a cada local de trabalho por um ano em cada.

Nota mental 3: Mesmo tendo dinheiro para comprar um lar à vista, o que não é o caso, alugar ainda me seria uma melhor opção. A definição do que é melhor é mais relativa do que parece.

Daí agora que ja haviamos determinado que não tinhamos mais a intenção de adquirir o apartamento que morávamos, a proprietária resolveu os problemas burocraticos (parece que o ex marido pagou a dívida junto ao banco, eliminando a pendência) e iria finalmente poder vender o apartamento.

Resolvemos que, então, era hora de dizer tchau, e informamos que não tinhamos mais a intenção de comprar o imóvel. E que seria melhor para o nosso relacionamento, meu e da Alê, nao meu e da proprietária, tensionado pela convivência remota, se continuassemos morando juntos, daí a Alê vem pra cá.

Ironia do destino 2: se tivessemos comprado o apartamento, agora ja estaríamos querendo vender.

Ironia do destino 3: estamos saindo com 11 meses de aluguel, mais uma vez, precavidamente, incluimos uma clausula que preve a não incidencia de multa caso resolvessemos sair antes, faltando somente uma parcela do assoalho trocado para ser paga.

Juntando os fatos de:
1 Nós estarmos programando o próximo passo de nosso relacionamento, que é motivo pra outro post
2 Estarmos nos instalando numa cidade com uma qualidade de vida razoável.
3 Ser, ainda, uma situação provisória.

Acho que tudo aconteceu de uma forma bastante conveniente para nós.

23.7.08

Salvando o Mundo

Todo mundo quer salvar alguma coisa. Fruto do panico com o aquecimento global, cada vez mais pessoas estão empenhadas em salvar o planeta, o que, de acordo com George Carlin, é uma tremenda besteira.

Maa, diminuindo a escala para um nível mais doméstico (bem mais doméstico) Essa semana presenciei as primeiras fases de uma saga épica de salvamento que só terminou ontem a noite, com a chegada do cavaleiro de armadura branca e sua caixa de transporte chique, mas estou me adiantando.

Tudo começou semanas atras em um Mc Donalds. Estávamos almoçando quando percebi que alguns rapazes da mesa próxima à nossa estavam se entretendo com um filhote de gato. Fiquei atento para me certificar que o bicho não estava sendo molestado e sosseguei quando percebi que era uma brincadeira sadia.

No fundo dos olhos da Alê já estava a centelha do que estava por vir.



A centelha não virou chama imediatamente, ficou dormente, tipo um vulcão adormecido, até sábado.

Estávamos passando em frente a um condomínio de prédios próximo a onde moramos quando eu percebi que o porteiro estava espantando um filhote de gato de dentro dos limites do condominio. Apesar de sua propensão imediata, consegui conte-la do impeto de ir ver o gato.

Mais tarde no mesmo dia, o gato estava na entrada do prédio onde moramos, e daí nao deu pra segurar. Mesmo de saída ela voltou e buscou racao para o filhote, que comeu vorazmente.

A partir daí passei a companhar a históra remotamente, atraves de seus relatos por MSN e telefonemas.

O gato, logicamente, instalou-se no gramado do prédio, onde recebeu um pano para dormir aquecido, uma tigela de água e porcões generosas de raçao para gatos.

O vulcão despertou.



E se nao fossem minhas restrições quanto a adoção de um novo animal, o filhote estaria ocupando o meu travesseiro nesse exato momento.

Mas instalou-se um dilema: Ela nao podia acolher o gato, nao podia abandonar o gato, nao sabia o que fazer com o gato. Por isso o gato estava instalado na grama da entrada do prédio.

Aí, numa das inspeções às condições do gato, Ela percebeu que o pano/cama do gato nao estava mais lá, segundo o porteiro, uma velha tinha pegado pra usar em casa.

Tensão, confrontamento e o pano estava de volta ao gramado.

Aí o síndico disse que nao podia ficar gato ali, que ia dar um jeito no gato. Aos prantos, ela recolheu os apetrechos do gato e se enclausurou no apartamento. Saiu e nada do gato.

Remorso: Eu devia ter adotado o gato, e se o gato morrer, e se o síndico matou o gato...

Mais tarde, ressurge o gato. Nova dúvida. Enquanto preparava o banheiro do apartamento para receber o gato lembrou-se que que sua cunhada cria gatos, ligou para a cunhada e ela informou que, se fosse uma fêmea, a adotaria. E agora? nao vi o sexo do gato? 50/50 são as chances.

Mais tarde, Eis que surge a Cris, com a caixinha de transporte.



E um nome para a nova parte da família: Rita Lee.

16.7.08

Incidente vestimental

Os Eventos a seguir ocorreram entre as 21:00 e 22:00 do dia 21/06/2008

Local: Restaurante do Tigrao - SBC

Durante um evento de pizza beneficente de uma entidade assistencialista do bairro, bastante gente trabalhando voluntariamente, bastante gente comendo pizza e se divertindo.

Estava eu sentado quando senti que, devido ao calor do lugar, minhas calcas estava grudadas na pele, especialmente na regi~ao dos joelhos.
A minha atitude padrao em situacoes similares e segurar a calca na altura dos bolsos frontais e puxa-la para cima, a fim de eliminar a situacao remotamente incomoda.

Operacao executada, percebo que o resultado foi satisfatorio, embora tenha percebido que uma das pernas tenha executado o movimento de subir com um pouco mais de facilidade do que a outra, mas nada digno de avaliacoes complementares.

Mais gente chega, mais gente sai, minha sogra vem com algumas amigas, as mesas comecam a rarear. Me levanto por algum motivo que me escapa agora e entao detecto a diferenca: Um rasgo na calca logo abaixo do bolso frontal direito. Alguns me chama de forcudo em tom de chacota, mas todos percebem que a calca deve ser bem velhinha, uma calca jeans rasgar assim?

Como foram danos minimos, o assunto ficou esquecido.

Chegam meus primos com suas filhas, uma de 5, outra de 4 anos. Elas gostam de imaginar que eu sou um daqueles brinquedos de buffet infantil, sabe aquele forrados de neoprene? E se penduram nas minhas pernas, bracos, pescoco.

Com receio de piorar o estrago na calca, evito incentivar a brincadeira. Elas vao brincar do outro lado do salao onde a Ale esta.

A Ale percebe que uma delas esta com os cadarcos desamarrados e se prontifica a auxilia-la, ao abixar para amarrar o cadarco da pimpolha, um barulho a assusta e a pressao exercida pela calca junto a seu corpo se alivia.

Imediatamente ela fica de pe e contra a parede, de forma a impedir que o estrago seja percebido por mais alguem.

Afortunada que so ela, trajava, ate a hora da entrada no recinto um casaco tipo sobretudo que lhe alcacava os joelhos, mas com o calor do recinto o casaco jazia do outro lado do salao, proximo de onte eu estava.

Ela pede ajuda a sua mae, que insiste em verificar o estrago antes de ajudar, ao constatar o tamnho do romba, poe-se a rir e isso chama a atencao de minha irma que nao se faz de rogada e ri ainda mais alto. Nenhuma delas disposta a ajudar.

De alguma forma ela consegue chamar minha atencao e me chama, ao ser informado do ocorrido, pedi para verificar o tamanho do estrago. Ela rasgou a calca bem na costura al altura do cinto ate a costura do fundo, expondo totalmente a calcinha e parte da bunda.

Depois de alguns minutos rindo, fui buscar o casaco.

Ambas as calcas foram destruidas apos o evento. A validade dos itens do guarda roupa foi analisada criticamente e diversos itens estao sendo substituidos

Claro que, para todos os efeitos, a forma errada de lavar as roupas atralada a alguma atividade executada inapropriadamente pela Ale foi a causa principal do incidente.
Foi a conclusao final da investigacao

(texto sem acentos porque esse computador é uma porra que só permitiu acentos aqui no blogger, não no word onde o texto foi escrito e nem fudendo que vou revisar agora)

11.7.08

Hancock

Abaixo vou falar bastante sobre o filme que ainda está em cartaz; se voce quer assistir sem saber do que acontece no filme, não leia.

Estava bastante óbvio na minha cabeça que, com esse monte de histórias em quadrinhos sendo transportadas para a tela, nao deveria demorar tanto para que o cinema desenvolvesse um roteiro / personagem próprio.

Depois de ter assistido, vi que o conceito de Hancock ja roda pelos estúdios a algum tempo. O que parece é que ninguem tinha colhões pra tirá-lo do papel. Acho que o fato do Will Smith, em alta pelos excelentes filmes que tem protagonizado, estar no barco ajudou a coisa a acontecer.

Meu maior receio, ao entrar na sessão, era encontrar mais um filme de super herois para todas as idades, com o velho politicamente correto que tanto enche o meu saco no mundo de hoje.

Mas não, apesar de u único palavrão do filme ser Asshole, que pra variar é traduzido como idiota, sempre achei que deveria ser cuzão, este xingamento é proferido inúmeras vezes. É até parte do argumento, é a palavra que realmente irrita o herói, tirando-o do sério.

Ele, a princípio não se preocupa em nada com as consequências do uso de seu poder na vida das demais pessoas ou a integridade da cidade que defende. Mais tarde, ja reabilitado e mais consciente do impacto de suas açoes, nao hesita em desmembrar um bandido ou atirá-lo do alto de um prédio em meio a uma luta.

O roteiro parecia fazer o filme terminar na metade do longa, mas algumas reviravoltas mantêm o pique. Embora uma delas fosse totalmente previsível, mas quando ela muda de novo é realmente impactante.

Também achei legal nao ser um história de origem. Hancock é superpoderoso desde o começo do filme, seus poderes nao tem explicação maior. Seria um deus? Um anjo? Um mutante? Ou somente, como a palavra está na moda, um super-ser? Não é contado. E não faz falta.

Efeitos especiais bem feitos, Will Smith com cara de azedo boa parte da história e Charlize Theron

Depois desse nome, nada mais resta a dizer.

1.7.08

Bafo de onça

Ainda não me decidi se sou parcialmente contrário à lei da tolerância zero ou se ainda existe alguma chance de eu fechar questão de ser totalmente contra. Fiz, no ultimo fim de semana, uma comparação entre dirigir embriagado e portar arma embriagado, pra comparar a falta de critérios na lei. Eu nem quis entrar no mérito de que um bochecho com listerine pode te por na cadeia ao assobrar o bafômetro. Fui convencido que que a comparação entre a arma na cintura e o volante nas mãos pode nao ser totalmente apropriada, já que as chances de alguem sacar uma arma e matar ou ferir alguém sob influencia do alcool são muito menores do que de alguem nao ser capaz de reagir adequadamente a uma situação adversa no trânsito em um estado de intoxicação similar. Concordo que é necessário diminuir o índice de acidentes de transito, em muito influenciado pelos motoristas alcoolizados, mas, como tudo nesse país, essa lei vem de forma errada, querendo parecer mais séria do que em países mais à nossa frente. Os limites impostos são muito baixos, abre-se toda uma nova fonte de renda para policiais corruptose “cidadãos”, assim mesmo, entre aspas, corruptores. A lei é aprovada em um momento que precisa-se dos holofotes em outra parte do legislativo. A imprensa faz a parte dela dentro do jogo de palco e cenário, levando a atencão para onde o diretor do espetáculo precisa, de forma que os bastidores tenham mais espaco de manobra e assuntos mais urgentes fiquem acobertados e ofuscados. Sim, estou falando da CSS e da Reforma Tributária. Sim, estou falando da inflação. Não vejo ninguem oferecendo a contra partida do Estado para tirar os carros da rua. Se houvesse transporte publico de qualidade, eu preferiria muito ser levado pra casa depois de algum porre por aí. Se houvesse transporte publico de qualidade, um taxi nao teria esse preco astronomico e inviabilizante que tem hoje e, mais uma vez, eu nao me importaria em deixar o poluidor em casa quando tiver que chapar o coco. Essa lei nao me cheira bem, e não é o azedo do alcool que me incomoda.

13.6.08

Preferencia nacional

Meu pai conta que certa vez assistiu a um discurso de Alexandre Garcia. Não lembro do motivo nem do tema, mas em dado momento ele passou a falar sobre a diferenca entre americanos e brasileiros e chegava a um ponto onde comparava as preferências sexuais dos dois povos.

Os americanos são fanáticos por seios. Toda americana que preste usa sutiã GG. Todo filme pornô norte americano tem peitudas. Nos filmes e seriados percebemos que lá, bunda grande é motivo de chacota. As atrizes têm, no geral, umas bundinhas muxibentas.

As mulheres daqui ainda nao perceberam que, ao adicionar seus mililitros de silicone, estão buscando o padrão de beleza de Hollywood, enquanto deviam buscar a beleza do fio dental.

Porque o povo brasileiro gosta mesmo é de bunda. Bundinhas arrebitadas, branquinhas ou morenas, com marquinha de biquini, gostosas de ver rebolando pelas ruas do país, gostosas de apalpar nos escurinhos desse mundão.

Daí Alexandre Garcia mudou de assunto e passou a comentar sobre o fato os Estados Unidos serem desenvolvidos, o povo de lá é próspero e aqui somos terceiro mundão.

E buscou encontrar algo que explicasse. Encontrou.

Os americanos são pósperos e nós somos esse paizinho fodido porque o maior objeto de desejo sexual do povo americano é também a primeira fonte de alimento e desenvolvimento do ser humano, o leite.



Alexandre Garcia agradeceu a atencão e se despediu. Quando as risadas começaram he was long gone.

6.6.08

Semanas Antes

Sarah gostava de dirigir, Mesmo à noite, gostava da velocidade da estrada, era meio que uma terapia. Ela, a musiquinha baixinha para nao acordar seu marido, que dormia no banco do passageiro.

Moravam em Santa Catarina, iam passar uns dias na casa de um amigo de faculdade dela que morava em Vitória. Como tinham tempo, resolveram economizar a passagem aérea e ir de carro, assim teriam maior mobilidade em Vitória e, se tudo fosse uma merda, poderiam voltar antes, ou seguir adiante, até o litoral baiano, como ela queria.

Depois de dirigir o dia inteiro, o marido propôs pararem em algum motel para pernoitarem, mas Sarah disse que queira dirigir um pouco, para adiantar o trajeto. Trocaram de lado e continuaram.

Depois de algum tempo sem passar por nada nem ninguém, Sarah avistou luzes à frente, tirou o pé do acelerador, ia parar, pensando se tratar de um motel, mas uma placa dizia:

A Melhor Carne da Região!

Então ela acelerou, não sem perceber que haviam muitos caminhões parados, concluiu que a carne deviar ser realmente boa.

Logo à frente, uma curva acentuada à esquerda e de repente um estouro (O Pneu!!!, pensou ela) e o carro desgovernado saiu da pista, colidindo violentamente com um poste fora da estrada.

Gracas ao conjunto de equipamentos de segurança, Sarah não se machucou, soltou o cinto de segurança, se desvencilhou do airbag e chamou pelo marido, ele não estava no carro.

Havia sangue no para brisa estilhaçado. Ela bem que tinha insistido para que usasse o cinto de segurança, teimoso.

Desceu desesperada e encontrou o marido desacordado e ensangüentado caído no chão a alguns metros.

Ouviu vozes e um latido de cachorro. Gritou por socorro.

De repente o cão chegou e a atacou, quando o cachorro ia mordê-la, alguem gritou:

- Cão!!! Quieto!!!

E o cachorro obedeceu, dois velhos carregando lanternas chegaram ao local.

- Eu cuido do carro.

E um deles se dirigiu ao carro, enquanto o outro se aproximou dela e a agarrou com violência pelo cabelos, dizendo:

- Magrinha, não vai dar pra nada...

4.6.08

Quase no fim

Quando acordou, tinha a impressão de ter ouvido a voz de Sarah, sua esposa, chamando pelo seu nome, mas não sabia se era sonho ou realidade.

Pensou nela e em se ela estava procurando por ele, mas não sabia nem ao menos se ela estava bem. “carro em chamas” pensou, sentiu medo por ela.

Sua perna direita doeu, parecia que seu joelho estava torcido, se mexeu para fazê-lo parar de doer e percebeu que seus movimentos estava limitados por uma corrente que prendia seu braço à armação da cama e que sua perna direita não estava lá.

Estava escuro, ao olhar para cima, deduziu que era noite, pois não havia luz por entre as telhas.

O cheiro de comida ainda estava presente. Percebeu que essa era uma constante desde que acordou naquela cama.

Ficou lá, com medo e ansiedade enquanto o dia nascia. Ao mesmo tempo em que aguardava o momento em que um dos velhinhos viria e ele poderia tentar arrancar alguma informação, temia o que poderia descobrir.

E foi isso o que aconteceu, com o dia claro, passos sobre o piso de madeira denunciavam que alguem se aproximava.

Era o velho careca, qual era mesmo o nome dele? José ou João, não se lembrava mais.

Ele trazia uma caixa de madeira com uma alça, como uma maleta de ferramentas.

- Já acordado? Bem, não faz diferença.
- Por favor… O que está acon
- Calaboca!
- ...
- Se conseguissemos te manter calmo por mais tempo voce viveria mais, mas o medo não é bom para nós – e olhando com curiosidade para mim – estraga a carne!
- Como assim?
- Nosso prato da casa leva um tempero especial que o faz muito popular entre os caminhoneiros da Dutra, mas ja percebemos que quando voces sentem medo o sabor estraga. Por isso pra voce acaba hoje.
- Como?
- Nós o mantivemos vivo porque quanto mais fresca a carne, melhor o resultado do prato, sua perna rendeu quase uma semana! A outra perna deve dar até o fim do mês.

Dito isso, retirou um facão da maleta e veio em direção à cama.

- Por favor, e minha esposa?
- José está com ela agora. Velho indecente. Disse que ela é muito magra, porém bela. Arrumou outro uso para ela. Quando ele se cansar dela, ela servirá de alimento para o cão.

João então agarrou seu pulso que estava solto, puxou de forma que a corrente do outro braço se esticasse e segurasse seus braços abertos. Fraco como estava, nao conseguiu reagir.

O facão desceu rápido em seu pescoço, praticamente o decapitando.

Conclui.

3.6.08

Capítulo 2

- Ah meu Deus!!! Meu Deus!!! Minha perna!!! O que houve com minha perna!? Meu Deus!!!
- Acalme-se…
- Acalmar, como acalmar? Estou sem minha perna!!! Minha perna!!!
- Não tinhamos escolha, se não cortássemos sua perna fora, voce estaria morto.
- Co-Como assim?
- Não sabemos bem, mas quando o encontramos, vc tinha fratura exposta no osso da coxa e muito sangramento. Nós o trouxemos pra cá e meu irmão, que sabe dessas coisas tentou consertar, mas a infecção nao diminuiu, voce ardia em febre, então ele cortou fora e então você sarou.
- Seu irmão?
Foi então que o outro velhinho apareceu. Era indiscutível que fossem irmãos, tamanha a semelhança. A única diferença eram os cabelos, ao passo que José – esse era o nome do primeiro velhinho – tinha os cabelos totalmente brancos, João – esse era o segundo – era careca da testa à nuca.

Até mesmo o encurvado das costas ao andar dos dois era identico. Ao lado de João, vinha um cão marrom, pelo médio, sarnento, magro e também velho, que andava com os dentes à mostra, como se estivesse rosnando.
- O que houve com a minha perna? Como voce a cortou?
- Acalme-se, jovem, explicarei agora, mas voce deve se acalmar, voce estava muito fraco, perdeu muito sangue e a infecção tomou muito de sua força.
- . . .
- Tentamos o que foi possível para salvar sua perna, mas o estado em que o encontramos era grave, tivemos que agir sem demora.
Mais uma vez tentou se levantar para ver melhor o que estava acontecendo e desta vez consegui se sentar. O cachorro começou a rosnar e avançar ameaçadoramente em sua direção.
- Quieto!
Esse era José.
E o cão parou, embora seus olhos cheios de ódio ainda se mantivessem vidrados nele.
Conseguiu então ter uma visão melhor do queadro geral; Ele estava realmente magro, quantos dias teriam se passado? O que aconteceu? Onde estaria Sarah? A cama era muito velha. No comodo em que estava havia somente a cama, uma janela alta e a porta por onde todos entraram. A iluminação era precária. Pelas frestas nas telhas era possivel dizer que era dia, mas somente isso. O lençol da cama, outrora branco, era velho e amarelado. Ele ainda vestia a mesma camiseta preta que estava no dia da viagem, e a mesma calça jeans, embora cortada na altura dos bolsos na perna direita.
Fez menção de se levantar, mas foi impedido por José.
- Voce ainda está fraco, descanse.
- Mas preciso entrar em contato com alguém, preciso de um telefone.
- Amanhã o levaremos até a cidade e isso poderá ser resolvido. Por hora, descanse, ja lhe traremos uma sopa.
Ele estava realmente fraco, desistindo de argumentar, deitou-se novamente e ouviu todos se retirarem.
Dormiu, seu sono foi perturbado, havia dor, gritos e imagens disformes, como índios dançando ao redor da fogueira.
Passado algum tempo, João retorna com uma tigela fumegante, então o cheiro de canja de galinha o atingiu e ele se lembrou que nao comia a tempos e que uma sopa seria em vinda. Tomou a sopa e uma sensação de calor reconfortante o embalou.
Aninhou-se de lado para dormir e ouviu o velho sair e fechar a porta.
E foi então, ao se mexer que fez a cama balançar e ouviu um som metálico, olhou para a lateral da cama e viu uma corrente presa à armaçao da cama com um tipo de grilhão com cadeado.
Nesse momento ouviu a voz do velhinho, nao sabia dizer qual, às suas costas:
- Eu achava que teríamos mais uma noite antes da corrente ser necessária.
Uma pancada na cabeça e tudo ficou escuro novamente.

Continua

2.6.08

Acordou de um sono perturbado, meio enjoado, zonzo e deslocado. Seu corpo doía de uma forma que nunca havia doído antes. Doía nos ossos, doía nos musculos, doía na pele.

Tentou se levantar mas não tinha forças, seu corpo parecia mais pesado do que se lembrava.

Sua visão de onde estava era de um teto com telhas aparentes, telhas de barro, com armação de madeira, parecia velho. Algumas teias de aranha nos cantos mais altos e o aspecto das vigas de madeira denunciavam o descuido do dono do lugar.

Estava numa cama, o colchão era fino o bastante para que sentisse as ripas do estrado contra seu corpo.

Um cheiro de comida vinha de algum comodo fora do quarto mal iluminado em que estava.
Mas um esforço para se levantar e nenhum sucesso, começa a se desesperar:

- Alô? Alguém aí?
- . . .
- Alôôô?

Passos sobre um piso de madeira. Se aproximando. Um velhinho curvado e magro aparece ao lado da cama:

- Ah, acordado. Que bom. Estávamos preocupados. Voce dormiu por vários dias.
- Onde estou?
- Está em nosso vilarejo. Em Goiabal.
- Goiabal? Isso é perto da Dutra?
- Dutra? Sim, fica próximo, encontramos voce proximo a um carro em chamas e o trouxemos para casa para auxilia-lo.
- Me trouxeram? Mas e minha mulher? Ela estava dirigindo!
- Sinto muito, não havia mais ninguem lá, nós procuramos.
- Nem mesmo dentro do carro?
- Como eu disse, estava em chamas, mas não parecia haver mais ninguem lá.

Sua perna direita coçava. Se mexeu para coçar e haviam faixas cobrindo sua coxa. O velhinho ainda falava

- Voce estava sangrando muito, nós cuidamos de voce, mas infelizmente não pudemos fazer nada por sua perna.

O velhinho disse isso no exato momento que ele tateou e percebeu que a atadura terminava um pouco abaixo no inicio do fêmur.

Continua...